Entrevista com Steve McCurry

O fotógrafo Steve McCurry relembra sua experiência com último rolo do filme que considera legendário.

(Por Bola Teixeira)

 

Esta semana o Portal Photos divulgou algumas das imagens que Steve McCurry captou com o último rolo de filme Kodakchrome. Devido ao grande número de leitores que tiveram interesse pelo assunto estamos replicando a entrevista exclusiva, feita pelo jornalista Bola Teixeira, publicada na revista Photo Magazine no início de 2012.

Confira a seguir a matéria da revista na íntegra.

O cantor Paul Simon cantou o Kodakchrome no seu There Goes Rhymin´Simon. É a primeira faixa do álbum lançado em 1973. Naquela época jamais se imaginaria que o consagrado filme fotográfico chegasse ao fim. Em 2010, quando a Kodak jogou a toalha e anunciou o encerramento da produção do Kodakchrome, o fotógrafo Stevie McCurry idealizou um ritual de despedida, solicitando o último rolo para uma produção histórica que acabou ficando conhecida como, justamente, o último rolo (The Last Roll). Agora, quando a própria Kodak está em situação de risco, McCurry concedeu entrevista para a reportagem da Photo Magazine, onde fala sobre o filme e a produção do último rolo.

O Kodakchrome foi o filme obrigatório nos trabalhos desenvolvidos pelo fotógrafo Stevie McCurry. Logo que soube da descontinuidade da produção do filme, sua sensação foi extrema: o fim de uma era. “Sinto um pouco de tristeza e nostalgia por este filme maravilhoso que usei por 25 anos. É um lembrete da impermanência das coisas – que por fim, tudo desaparece. Kodachrome foi a única forma que fotografei por décadas. Mesmo hoje em dia, você não consegue produzir uma foto melhor com qualquer filme ou equipamento digital. É definitivamente o fim de uma era”, afirma McCurry que absorveu a idéia do que ele chama de fim de uma era. “Penso no Kodachrome como um velho amigo, como alguém que você nunca irá ver novamente. Era um belo filme, maravilhoso e tive grande sucesso fotografando com ele”.

Ao solicitar o último rolo para fotografar, McCurry tinha, como objetivo, criar um “tributo para este filme legendário”. Os sets foram escolhidos a dedo. McCurry procurou por pessoas e lugares emblemáticos que representassem algo atemporal, como o próprio filme. “Fotografei Robert de Niro em Nova York, e o fotógrafo Ara Gular, em Istambul. Na Índia, fotografei alguns dos nomes mais icônicos do cinema indiano. Fotografei o povo Rabari, do Rajasthan, que para mim compartilhavam uma situação semelhante a do Kodachrome. Ambos eram únicos e especiais, mas mesmo assim desapareceram do mundo. O Kodachrome sendo suplantado pelo aparecimento do digital, e os Rabari sendo substituídos pelo mundo moderno. O ideal seria ter feito as imagens em todos os continentes, mas há componentes logísticos e de tempo que entram em cena com um projeto como o Último Rolo”, relata o fotógrafo.

O projeto consumiu vários meses do ano de 2010. McCurry começou o roteiro em Nova York, seguiu para a Índia, depois Turquia, antes de retornar aos Estados Unidos. “Os frames finais do rolo fiz em Parsons, Kansas, onde estava o laboratório para processar o s rolos finais deste filme. Achei ser um local apropriado para finalizar esta jornada”, recorda McCurry referindo-se ao Dwayne’s Photo. O último rolo do Kodakchrome tinha 36 “poses”, nenhuma delas que merecesse um destaque individual. “Não posso apontar um frame como imagem definitiva deste rolo. Acho que tem a ver mais com o projeto como um todo. Para mim era como celebrar um longo caso de amor com o filme que tinha me levado pelo mundo”. A Vanity Fair foi a primeira publicação de todo o set de imagens em fevereiro do ano passado, e a primeira exibição pública aconteceu no Museu de Arte Moderna de Istambul, na Turquia.

Foi na publicação da Vanity Fair, que o jornalista que assina a matéria, David Friend, compara o Kodachrome ao saxofone no jazz. McCurry concorda: “É uma forma poética de descrever este filme incrível. Acho que o filme era como o saxofone, por ser diferente, único e poderoso nas mãos das pessoas que sabiam usá-lo. Para mim, o impressionante do Kodachrome era a riqueza, precisão da cor e a consistência. Nunca precisei me preocupar com o resultado”, observa o fotógrafo que, assim como outros profissionais da fotografia, migrou para o digital assim que a tecnologia se tornou disponível. “Quando usava filme, era capaz de usar centenas de rolos em uma única sessão na qual somente alguns fotos excepcionais seriam escolhidas para uso. Com filme, estávamos sempre limitados a não poder fotografar com pouca luz, incapazes de parar a ação sem o uso de luzes adicionais, limitando onde você poderia fotografar. A tecnologia das câmeras contemporâneas faz com que eu possa fotografar com pouca luz, o que teria sido completamente impossível antes. O digital me permite explorar a fotografia em direções que nunca teríamos pensado ser possível antes”, compara.

 

Embora McCurry tenha boas lembranças da era do filme, ele garante que não olha para trás. “Ainda tenho alguns rolos de Kodachrome na geladeira, mas com o fim do processamento, eles são apenas boas lembranças”, revela McCurry. Para o fotógrafo da Magnum, o Kodakchrome “foi um belo filme, que replicou as cores que vi na vida, com mais fidelidade do que qualquer outra mídia que eu tenha usado. Elegante na sua simplicidade, ainda que complexo nas possibilidades, Kodachrome foi verdadeiramente o filme icônico de sua era”. E um revival do Kodachrome nos moldes dos filmes instantâneos? McCurry descarta qualquer possibilidade: “Não é possível. A revelação sempre foi bastante cara, e o interesse, e materiais, simplesmente não existem mais”, concluiu.

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